17.10.09

ACERCA DA " STREET PHOTOGRAPHY" E DAS SUAS VÍTIMAS.























©Bruce Gilden in "A Beautiful Catastrophe"

A disciplina fotográfica mais polémica na relação entre fotógrafo e fotografado, o direito à imagem e à privacidade, deve ser a chamada "Street Photography". Conheço poucos fotógrafos que em dado momento não tenham feito incursão neste género, que quando feito com honestidade é dificil e sofrido, por, como bem sumariza a nossa camarada Anabela Oliveira, ser preciso a coragem "para ir lá, sujeitar-se a ser agredido como, no fundo, podemos estar a agredir os fotografados."


Não sei se esta interessante reflexão ética faz parte das preocupações do fotógrafo da Magnum Bruce Gilden (Brooklin, 1946), um dos expoentes máximos do género, cujo registo é particularmente cru. As "vítimas" que caça nas mais variadas latitudes aparecem maioritáriamente com um ar de desconchavo fatal, espécie de "Fellini meets Diane Arbus by Stephen King". Gilden esteve há alguns anos em Portugal, onde produziu, fiel á sua estética, uma série notável, junto da comunidade cigana de Braga. Quem o conheceu diz-me que é o arquétipo do Nova Iorquino à lá Woody Allen, neurótico, mas muito divertido. E  alheado q.b. do recorrente debate que a sua práctica inevitávelmente desencandeia.


Por mim, se fosse seu defensor, advogaria que o seu trabalho, ao documentar fragmentos de uma sociedade viva e mutável, num dado espaço e tempo, tem a valia de um August Sander.
Se fosse seu detractor diria que Gilden não passa de um predador visual que não hesita em sacrificar a dignidade dos seus semelhantes à sua própria visão social apocalíptica.
Mas a perplexidade e o fascínio que a sua produção e  modus operandi me causa, não me facilita a sentença. Diz o próprio num depoimento a propósito da sua série no Haiti em 1985 que, "When a viewer looks at my pictures, I just hope that they make up a story about what goes on."
Justo. Olho então para a personagem da direita da "dupla" acima reproduzida, extraida do seu celebrado livro "A Beautiful Catastrophe"; e a história que faço é a de uma cidadã, que já teve da vida a sua dose de misérias, má sorte e chatices sortidas, e que dispensaria a honra de se ver dada à estampa, em papel couché e nas boas galerias, como actriz involuntária de um projecto visual que inventaria "the human zoo that is New York".


Certeza só tenho que isto da fotografia tem que se lhe diga.

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