12.7.13

DON McCULLIN: TOMAR PARTIDO ENQUANTO FOTOJORNALISTA



O trabalho do fotojornalista britânico Don McCullin (Londres, 1935), foi um dos responsáveis maiores pelo interesse que eu e muitos da minha geração desenvolvemos pela arte da reportagem fotográfica.

As suas façanhas no Vietname, Biafra, Chipre (World Press Photo de 1964), Irlanda do Norte e outros teatros da tragédia entraram pela porta grande na história do métier.

Dele convido-vos a ver atentamente o video acima onde a partir do minuto 3:20, McCullin assume frontalmente ter encenado uma das suas fotos mais reconhecidas, na qual o cadáver de um soldado norte-vietnamita jaz rodeado pelos seus pertences íntimos. Descreve o fotógrafo que as tropas norte-americanas que o haviam abatido, pilharam de seguida os parcos pertences do inimigo caído, numa manifestação da miséria humana que empesta os campos de batalha.

Don McCullin, figura romântica à la Capa, ficou tão perturbado pela cena, que decidiu nas suas palavras, "(...) I`m going to make something out of this situation(...)", dispondo então as fotografias de familia do soldado caído à sua volta, no que entendeu ser uma homenagem à sua tragédia e um desagravo pela indignidade sofrida. A imagem tornou-se icónica como libelo contra uma guerra absurda sobre a qual a história já fez o seu juízo.

Os problemas que esta foto e a sua feitura levantam são óbvios à luz do mito da observância de objectividade não interventiva que é exigida aos fotojornalistas.

Batota sem desculpas, gritarão muitos. Outros poderão contrapor que o fotógrafo, ao tomar partido de uma forma tão aberta, colocou-se apenas no mesmo patamar de muitos dos seus colegas redactores, que constroem a prosa de modo a ecoar nos leitores a sua sensibilidade sobre a realidade e os acontecimentos.

A fotografia, como o Mundo, não é de facto uma coisa a preto e branco, e hoje é a esta reflexão que vos convido.


11.9.11

O 11 DE SETEMBRO DE "CHICO" LAGOS.

           Santiago do Chile, 11 de Setembro de 1973. As últimas horas de Salvador Allende .
                                                       Foto de Orlando "Chico" Lagos




 O 11 de Setembro de 2001 foi óbviamente documentado visualmente de forma maciça. 
Dessa imensa produção, há fotos para todos os gostos e feitios, das mais espectaculares ás mais subtis, muitas recorrentemente recuperadas nas efemérides da ocasião. Várias delas foram premiadas na edição desse ano do World Press Photo (WPP), cujo grande prémio foi no entanto atribuído a uma imagem de Erik Refner obtida numa das tristemente habituais catástrofes humanitárias africanas.

Mas uma das primeiras fotos que enquanto garoto me ficou na retina, foi de facto grande prémio do WPP, e foi obtida num 11 de Setembro. Não o de 2001, fundador do tempo que vivemos, mas o de 1973, ano do golpe militar de Pinochet, acontecimento que na altura teve enorme repercussão  na luta mortal das ideologias.
Nela se vê Salvador Allende rodeado de fiéis, capacete na cabeça e AK-47 a tiracolo, a assomar a uma das entradas do palácio de La Moneda, para observar as evoluções dos aviões golpistas. Nos rostos apreensivos pressente-se a iminência do fim que inscreveu na imagem a carga mitíca que a tornou célebre.
Também a história do fotógrafo que a obteve é triste;  Orlando "Chico" Lagos ( 1913 – 2007) era à data fotógrafo oficial da presidencia chilena, e saiu do palácio na última hora, na companhia das filhas de Allende, e com alguns dos rolos que tirara com a sua Leica dissimulados na roupa.  As fotos chegaram umas semanas mais tarde aos Estados Unidos e começaram a correr mundo com a menção de "autor desconhecido". Normal, pois Orlando, por razões de segurança pessoal havia pedido que assim fosse, e foi com essa assinatura que ganhou o referido grande prémio dos WPP de 73.

 Esse anonimato terá no entanto estado envolto numa série de equívocos, pois Lagos teria negociado com  a direção do New York Times de então que a autoria da foto seria oficialmente desvendada com a sua morte, o que não terá acontecido. Tal como não terá recebido os 12 000 dólares (soma importante à data) que seriam a contrapartida da utilização das fotos. 

A história é como disse triste, e está bem contada nesta página de 2007 do diário chileno "La Nación". 

Mais do que julgamentos, a mim interessa-me neste 11 de Setembro deixar a minha homenagem a um fotógrafo ao qual as circunstâncias roubaram a glória mas não a honra.

2.9.11

HOMENAGEM AOS AMADORES. O CASO VIVIAN MAYER.

 Vivian Mayer. 22 de agosto de 1956


                                                     Vivian Mayer. NYC, s/data


A minha amiga Mafalda Borges chamou-me a atenção para o caso de Vivian Mayer (1926 – 2009), uma discreta ama de Chicago e  fotógrafa amadora irreprimível, que desde os anos 50 produziu, sobretudo na companhia de uma Rolleiflex, um notável corpo de trabalho. No registo do quotidiano (ainda e sempre a "street photography") e de viagens, financiadas ao que parece com a venda de alguns imóveis de familia.

Sobre a sua vida e obra existem informações em bom detalhe aqui e aqui, derivadas do interesse de John Maloof, o responsável pela divulgação da obra da fotógrafa. Em 2007, Maloof, um estudioso da história de Chicago, adquiriu sem grandes expectativas 30 000 negativos leiloados na sequência da insolvência de Mayer, que terá passado os últimos anos de vida perto da miséria.

Segundo o dicionário, o termo "amador" refere-se "ao que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte". Longe portanto, do sentido pejorativo associado aos intrusos nas esferas às quais se associam competências técnico-estéticas especificas. 
Vivian Mayer parece ter levado esta definição ás ultimas consequências, pois do seu trabalho não houve eco até depois da sua morte, e a sua actual divulgação deve-se a circunstâncias próximas do puro acaso. Tal anonimato deveu-se não a uma daquelas injustiças de avaliação de mérito em que o mundo é pródigo, mas pelo simples facto de Mayer nunca ter mexido uma palha para que tal acontecesse, pois aparentemente nunca se preocupou em mostrar as suas fotos fosse a quem fosse. Muitos negativos foram obtidos ainda por revelar.

Não acredito que não tivesse consciência do seu valor e do interesse que despertariam. O seu olhar é o de uma esteta, e os estetas sabem do valor da beleza. Mas a sua práctica devia fazer parte  de uma catarse íntima, de um prazer cuja satisfação quase onanista tornava dispensável a validação pelo outro.

Uma espécie de meta-amadora portanto, cuja opinião que poderia ter acerca da divulgação das suas imagens, (com um livro em preparação e popular presença online), permanecerá motivo de especulação e discussão.

Em todo o caso momentos de poesia pura, que reforçam a certeza de que o carácter cada vez mais democrático da práctica fotográfica é a sua maior força, e que a contribuição do anónimo amador pode, no tijolo final da construção do seu edificio, valer tanto como a do celebrado profissional. 
Por incómoda que a ideia seja a muitos como eu.

28.8.11

"HERE KITTY KITTY"; LOST IN NYC E MAIS ANGÚSTIAS DA "STREET PHOTOGRAPHY"







©Zach Arias,  2011 da série "Here Kitty Kitty"


Quem foi passando por aqui, já se apercebeu que a chamada "street photography" é um dos meus assuntos favoritos de reflexão (e hesitação) fotográfica, pelas mais pedestres razões; o fascínio do espectáculo urbano, com tanta situação "a pedir" para ser roubada, versus o constrangimento que o "roubo" causa, blábláblá e etc, uma equação que já causou crises místicas em fotógrafos de verdadeiro talento. Lembro-me de numa noite distante nos anos 80 ouvir no Porto, Gérard Castello-Lopes a falar dessas angústias.

Isto como desculpa para partilhar a imagem acima de Zach Arias, fotógrafo norte-americano inicialmente dedicado á fotografia de música, mas cuja fome visual puxa naturalmente para outros mundos. Precisamente nas suas incursões pelo quotidiano de NYC (a que deu o adorável nome de código de "Here, Kitty Kitty") tropeçou em Time Square com esta singular personagem que estava a ser interpelada por dois garbosos cívicos, que segundo conta, básicamente lhe estavam a dizer para se por a mexer ("get lost lady") por não ter a necessária licença para posar para os turistas (!?). Zach acrescenta judiciosamente que "already lost" já a pobre senhora lhe parecia estar e já não devia ser de agora, acrescento eu.

Uma pequena ironia mais para o oficio do "chausseur d`images" em modo street. E a policia, uns chatos em todas as latitudes. Já não basta dar mimo aos que se amotinam quando se veem fotografados à surra, ainda espanta os que se querem deixar fotografar...

Enfim, piadolas duvidosas à parte, importante mesmo é visitar aqui o trabalho deste simpático Zach Arias.

24.8.11

DA INOCÊNCIA DOS VERÕES FELIZES.

                                                        Weegee, Coney Island 1940.

A série de workshops de fotografia que estou a co-organizar com os meus queridos Clara Azevedo e Paulo Vaz Henriques, tem a vantagem acrescida de servir de motivo para revisitar algumas imagens essenciais, às quais que nem sempre tenho voltado com a frequência recomendável.

Assim, coube-me a propósito de um elogio do uso do flash, apresentar à paciente plateia um pouco da vida e obra de Arthur Fellig "Weegee". 

Nome incontornável da história do métier,  as incidências da sua carreira estão abundantemente documentadas em todo o escrito sobre a coisa, online e offline. Ao leitor curioso, basta a pesquisa da ordem.

Para aqui basta apenas dizer que o principal do corpo de trabalho pelo qual se celebrizou, foi a documentação da cena policial, do crime e do "bas-fond" nova-iorquino, sobretudo nas décadas de 30 e 40 do século passado. Actor e testemunha em ambientes soturnos e carregados de um preto e branco de "film noir", Weegee poderia ser fácilmente apelidado de um fotógrafo da(s) sombra(s).

Mas, uma das suas imagens mais famosas, é este tão célebre quanto fantástico instântaneo obtido na praia de Coney Island em 1940.
Não sei bem bem qual foi a preparação da foto, que será uma estória dentro da história, mas para a posteridade ficou o registo de uma multidão gigante, que olha para a objectiva num mar de alegria e entusiasmo.

Será muito dificil nos tempos de desconfiança urbana em que vivemos e viveremos, voltar a congregar tantos olhares que olhem em simultâneo para um fotógrafo com tão inocente motivação.

Uma espécie de paraíso perdido, onde um fotógrafo das sombras teve o seu momento mais luminoso.


2.5.10

OH NÃO! MAIS UM PORTFÓLIO DE FÁTIMA.

          Santuário de Fátima, Setembro de 2004 © Paulo Alexandrino

Ah pois é, mas eu também sou filho de Deus.  E os terrenos da Fé são sempre férteis para os fotógrafos, mesmo os de talento remediado. Seja como for, o conjunto de imagens que pode ver aqui na totalidade,  não é momento de "arte & ensaio", mas um salteado de reportagens recentes para a Notícias Magazine, Notícias Sábado e Readers Digest, na companhia dos bons camaradas de escrita Ricardo Rodrigues, Samuel Alemão e Mário Costa.

Com o Mário, vi na estrada que os peregrinos de hoje estão mais bem  equipados e calçados, sabem da importancia dos alongamentos e das massagens, e que as eficazes brigadas de apoio continuam a servir sólidas sardinhadas bem regadas nas pausas da jornada. E que no Santuário, a Procissão de Joelhos continua inelutável,  agora sob o olhar tutelar da estátua de João Paulo II e da modernidade da Igreja da Santíssima Trindade, novos ícones do recinto.
Nos bastidores, vimos fabricar as hóstias que as multidões consomem aos milhões, e conduziram-nos  pelas entranhas da moderna fornalha que recicla a cera das toneladas de velas como as que aquela mulher de branco vê consumir em longo alheamento.

Tambem gostei, de na companhia do Ricardo ter conhecido Gregória Alarcón, a suave miraculada espanhola, pedra na qual o já partido Padre Luís Kondor assentou a construção do processo de canonização dos videntes de Fátima. A propósito, será que aquele parente de Lúcia, ele próprio uma atração turistica (tendência índio de madeira), ainda recebe os visitantes na casa de infância dos pastorinhos, à porta da qual o merchandising mais ingénuo campeia. 

Também me comovo com as operárias, que nas poucas fábricas que ainda resistem à invasão chinesa, dão corpo à inalterada estética kitsch que desde há décadas atafulha as centenas de pequenas lojas e gigantes armazéns de artigos religiosos que monopolizam o espaço comercial da Vila. Nas quais, com o Samuel, ouvi os lojistas, que como todos os lojistas, se choram do negócio que está fraco, enquanto confirmam que as vendas de tudo o que é efige de João Paulo II dá dez de avanço a qualquer Papa Ratzi que lhe suceda. 

Gosto de tudo isto, tanto como do insondável mistério daquela carioca que abandonou o Rio, e agora saltita feliz  nas ruas de Fátima a arrebanhar clientes para o seu restaurante que tem uma palmeira pintada na parede e o mesmo menu de carne assada e bitoque de todos os outros. Tanto como gosto da maneira afável como o reitor do santuário olha para a camara num dia de inverno em que a chuva realça o brilho dos néons nas ruas tristes. 

Adoro todos estes momentos assim como adoraria  ter encontrado os negativos daquela já longinqua véspera de um 13 de Maio, em que na companhia do meu amigo Luís Villalobos, vi um carteirista incompetente aplicadamente sovado por uma turba alheada do espirito de concórdia cristã que por ali é lei.


Continuarei com as minhas visitas, tão regularmente quanto possa. Até porque a medida a que Portugal se renova está aqui bem à vista, nos usos e costumes de quem visita esta Fátima em que a é um lugar ainda mais estranho.

26.4.10

NELSON NO LABIRINTO DA GENERALA.

    ©Nelson d`Aires 2009. Manuela Ferreira Leite em campanha para as legislativas



 Como já toda a gente sabe,  a primeira edição do prémio Estação-Imagem / Mora, foi um retumbante sucesso. Parabéns e abraços para todos, organizadores, CM de Mora, vencedores e participantes.


Vendo os portfólios premiados, reforça-se a certeza que o fotojornalismo nacional está vivo, de óptima saúde e perfeitamente ao par com o melhor nível internacional.
 E com a devida vénia para o Paulo, o Gonçalo, o Guillaume,  e demais rapaziada, confesso-me particularmente seduzido com o fulgor do trabalho de  Nelson d`Aires na campanha do PSD. Há muito que não via a pantomina inútil a que os politicos em campanha sacramentalmente se submetem, tão eficazmente documentada.  Qual "generala" perdida no seu labirinto, Manuela Ferreira Leite é uma actriz em esforço, que tal como muitos outros, representa uma peça de cujo guião não gosta, cujo texto não sabe, para um público que não compreende,  acolitada por "compères" deslocados que  apenas realçam a violência inútil da situação.
O frio preto e branco de estilete com que o olhar de Nélson nos serve este teatro do absurdo, realça a dignidade apolítica deste ensaio, que assenta mais na elegância intelectual, do que no primado da emoção de que fala a jurada Daphné Anglès ao "i".


Assim, quase que valia a pena haver mais campanhas eleitorais. Quase. Ver todos os premiados aqui.

12.2.10

WORLD PRESS PHOTO 2010; UMA VISTA DE OLHOS.

 


   


 
 De cima para baixo; A manifestante iraniana Neda Agha-Soltan jaz baleada num frame de video amador; "Matadouro" de Tommaso Ausili, e "Katie, Hungry Horse, Montana" de Pieter Ten Hoopen.

Os prémios World Press Photo (WPP) de 2010 tiveram nesta edição alguns pontos dignos de nota. O mais interessante, é a atribuição de uma menção especial a um still frame  de um video amador rodado nos motins pós-eleitorais iranianos, e que o Youtube popularizou globalmente. Sobretudo por David Griffin, membro do júri, se dizer "agradado por o WPP  ter aberto caminho a imagens não-profissionais com significativo impacto no registo histórico visual". Estamos perante o que me parece ser um primeiro ( e lógico e inevitável) passo da veneranda instituição em direção ao cada vez mais inelutável fenómeno do jornalismo visual praticado pelo cidadão-repórter. Abstenho-me de repisar as vantagens que o grande público pode (ou não) tirar deste fenómeno, e os prejuízos e os riscos que não cessam de se agravar para o fotojornalista de "on the spot" e "hard news".
É também curioso verificar que o grande prémio desta edição, também ele captado nas eleições iranianas, situa-se nos antípodas formais do murro no estômago do anterior, parecendo configurar uma vontade do júri de aproximação a um registo mais subliminar, que por seu turno não será certamente consensual entre vasto número dos profissionais.


Trabalho de cidadão repórter é o que não é o ensaio do italiano Tommaso Ausili, 3º classificado de reportagem na categoria  de temas contemporâneosA sua série de um matadouro,  por onde passa a sombra de um terrível humor negro, faz-nos olhar com outros olhos para o bife no nosso prato, funcionando como um surreal e poderoso manifesto vegetariano. Fotografia de causas pura e dura.

Sobreveio-me também no meio desta e das outras habituais imagens-choque, o 2º lugar da categoria de retratos do holandês Pieter Ten Hoopen. É sempre bom ver que, também para o WPP, no meio da carnificina continua a haver lugar para a paixão erótica.
Fim-de-semana prolongado à porta, boa ocasião para ver tudo isto.

6.2.10

DINIZ MACHADO, O TÓPÊ, E A PERENIDADE DA BELEZA E DO TALENTO.

                                                          O Tópê, fotógrafo (in)tranquilo.


Li algures uma citação do saudoso Diniz Machado, que a propósito destes acelerados tempos de constantes mudanças tecnológicas e de costumes, dizia que o homem contemporâneo sente um inapelável sentimento de desancoramento e perda, face a uma realidade que requer reinterpetrações constantes.
Lembrei-me disto ao visitar a exposição que o António Pedro Ferreira mostrou recentemente na Kgaleria, que era balsâmica e retemperadora em relação a estas angústias. A (in)tranquila elegância formal daqueles 35 mm integrais a preto e branco, com o seu belo grão, sábiamente preenchidos de ponta a ponta, e que denunciam sem gritar uma realidade madrasta, fizeram-me lembrar (a mim e certamente a muitos da minha e de outras gerações), a razão porque, num dia cada vez mais distante, me deixei seduzir pela fotografia. 
E reforçar a certeza de que a beleza e a qualidade plástica, seja em que disciplina for, é imune aos modismos visuais e à vertigem tecnológica. De parabéns o nosso querido Tópê, e também a Kgaleria, por nos ajudarem a relembrar estas evidências.

Saber tudo, aqui.

31.1.10

IPAD, FOTÓGRAFOS, E O HOMEM DOS SETE INSTRUMENTOS.
















Irá o Ipad ser o fim do homem dos sete instrumentos?



O surgimento do  Ipad, é para vários analistas, o pontapé de partida para uma geração de aparelhos que vão suportar com novo fulgor uma produção online irreversivelmente ancorada no multimédia. A ideia é que por exemplo, ao ler um livro num destes aparelhos, determinadas passagens façam uma hiperligação para um outro conteúdo, seja um clip de uma adaptação cinematográfica, uma entrada para uma enciclopédia, ou uma biografia, tudo isto naturamente servido por opções de compra e aluguer.
No fundo, a mesma lógica que em boa medida, já se aplica em muitos sites de imprensa e outros, e de que podemos já fruir nos nossos laptops, pelo que num primeiro relançe nada de muito novo parece existir debaixo do sol.
No entanto...
"It`s all about the display", ouvimos Steve Jobs dizer ao tech-guru Walt Mossberg neste clip do "Wall Street Journal". De facto, o novo gadget joga a sua cartada web na optimização superlativa da navegação na net através de um mesmerizante ecrã que possibilita "segurar a internet nas mãos" como Jobs não se cansou de referir na apresentação. É este salto qualitativo na fruição visual online dos contéudos jornalísticos, que fundamenta as expectativas (e as rezas) de todos os envolvidos de uma maneira ou outra  neste negócio; de que é possível,  em grande parte através do elevar da qualidade sensorial percepcionada, convencer o consumidor a fazer algo que na internet é tido como absurdo: pagar por um contéudo. É nesta fé que o New York Times desenvolve uma versão para o Ipad e se prepara para voltar a cobrar pelo acesso ao seu site.


Para o fotógrafo de imprensa também este "upgrade" de paradigma vai acelerar as mudanças já em marcha, mas agora com interessantes nuances. Sendo certo que o deslocamento acelerado da imprensa para a net vai impor neste suporte cada vez mais a fusão entre imagem fixa e em movimento, a tentação de delegar no fotojornalista funções de videografia é óbvia e parece inelutável. Disto não faltam exemplos, assentes não poucas vezes em discursos de "voluntariado compulsivo", travestidos de modernidade, mas que na realidade visam apenas a contenção de custos. E aos quais nem alguns redactores escapam. Os resultados desta práctica são visíveis na fraca qualidade, técnica e narrativa, da maioria dos clips video que enxameiam os sites de media nacionais e até internacionais. Porque são executados por quem não tem as competências especificas que durante anos desenvolveu nas suas áreas de eleição vocacional. Mas que, por até agora serem fruídos numa lógica de acesso gratuito e de pouca exigência visual, têm "servido para o gasto". O que  é contraditório com o elevado patamar de qualidade de qual estes novos aparelhos são arautos, e que é a chave para persuadir o consumidor a pagar por aquilo que não pagava.


No limite, é "back to basics", ou seja, qualidade igual a competência, igual a profissionalismo, igual a especialização. Na net, no papel, em Nova Iorque ou na Brandoa. 
Pessoalmente, acho sensato que pela incerteza que preside ao espirito dos tempos, os profissionais de comunicação se apetrechem de "skills" básicos e pluridisciplinares. Mas que também nunca se perca de vista que, depressa e bem não há quem, e que o homem dos sete instrumentos é bonito mas quando cantado pelo Sérgio Godinho.

1.1.10

OLGA RORIZ E O ELOGIO DO ESFORÇO.


                                                         Olga Roriz conduz a audição para "A Sagração da Primavera"  © paulo alexandrino 2009





Tive recentemente ocasião de acompanhar um casting para uma companhia de dança; no caso, Olga Roriz recebia no CCB mais de uma centena de aspirantes a participar na sua futura coreografia de "A Sagração da Primavera". São momentos emocionantes. Não há amiguismos, favorecimentos, ou cunhas de faces mais ou menos ocultas que possam valer a um bailarino em audição. Só a intensidade desesperada do esforço físico e mental vale na busca do momento transcendente da comunhão entre corpo e música. Os corpos projectados num desafio à gravidade e à dor, estas criaturas dançam a alma.


A voz de Roriz é um sussurro que entre um silêncio reverente  se projecta claríssimo pela vasta sala, entrecortado apenas pela respiração ofegante dos corpos suados.
Consecutivamente, sentencia inapelável o desfecho: dos 120 bailarinos apenas 17 vão acompanhar a mestra na aventura. É sobretudo para os que partem que deixo a minha homenagem. Porque sei que de seguida, noutro auditório, perante outro juiz, voltaram a forçar as articulações até ao limite, na busca do triunfo sobre si próprios e no reconhecimento do seu valor.
É  em jeito de votos de ano novo que partilho convosco este elogio do esforço, ao qual estes maravilhosos seres nunca viram a cara, e que a todos nos deve inspirar. Porque o essencial, é não desistir perante o maior juiz de todos, nós mesmos.


Galeria de fotos aqui, relato circunstanciado e talentoso da ocorrência pela jornalista Ana Carreira aqui. Bom ano.

25.12.09

DE OBAMA A KHADAFI, OU AS BORBOLETAS DO PODER






  








Richard Avedon. Os Duques de Windsor, 1957




                                                                                                 




                                                                                                                                                         Platon. Muamar Khadafi, 2009
                


Existe um documentário em que Richard Avedon, a propósito do seu famoso retrato dos Duques de Windsor, conta que a duquesa, furiosa com o resultado,  lhe jurou que, "havemos de o destruír". Acrescentou a seguir, que considerando os patifes anti-semitas que eles eram, até achava que os tinha tratado muito bem.

Aconteceu a "Edward & Mrs. Simpson" o mesmo que a muitas outras figuras do poder, político ou social, que sempre foi atraído pelo glamour dos fotógrafos famosos, como borboletas pela luz. Seguindo a tradição da pintura clássica, e perante a promessa de imortalidade que o sortilégio da imagem fixa representa, arriscam baixar a guarda de uma imagem laboriosamente construida, num exercício que deve por os nervos em franja aos assessores de imagem, cuja cabecinha é a primeira a rolar, caso a coisa corra mesmo mal.

Esta relação foi há pouco tempo reforçada por um notável "tour de force" desenvolvido pela "New Yorker"numa recente reunião das Nações Unidas. Em meses de negociações de bastidores, a revista conseguiu autorização para que o seu fotógrafo-estrela do momento, o britânico Platon (Londres, 1968), instalasse um mini-estúdio à entrada do aerópago, com carta branca para arrebanhar os dignatários que se dispusessem a uma sessão foto.  Os retratos de Platon, apesar de alheados das motivações ideológicas de que Avedon dava eco, têm normalmente um toque desconcertante, parecendo uma  surreal mistura de cartoon com hiperrealidade. Assim, é sabido que quem alinhe na coisa, não é garantido que fique com uma daquelas fotos para por no jazigo. E no entanto, em 5 dias frenéticos, dezenas das mais ilustres "borboletas", de Obama a Ahmadinejad, de Lula a Khadafi, lá se sentaram para a objectiva. Os resultados são magnificamente divertidos, e adorava ser mosca para saber o que foi dito nas chancelarias deste mundo.

Grandes momentos, cujas perípécias são imperdíveis  aqui.

1.12.09

EM ROMA, TRATAR OS ROMANOS COM RESPEITO.



                   © Marco Baroncini, 2009



O incontornável lens mostrou-nos recentemente mais um belo momento de fotojornalismo, desta vez da responsabilidade do italiano Marco Baroncini, (1972).
 O assunto da sua história, os ciganos de etnia Roma, estavam (estão) literalmente ao virar de todas as esquinas. O incómodo que a sua presença causa, torna-os virtualmente invisíveis aos seus compatriotas romanos, numa reacção de autodefesa que todos os urbanos tão bem conhecem. Baroncini olhou, e com respeito, sensibilidade e método, fez pacientemente aquilo para que durante anos se treinou; através da imagem fixa, trouxe para o seu público mais uma peça para o mosaico da sua contemporaneidade.


Esta reportagem, na aparência semelhante a tantas outras, captou-me a atenção por evocar alguns temas sobre os quais gosto de reflectir. Em primeiro lugar, uma abordagem visual que vive no respeito pela dignidade do outro, onde o relato da crueza das circunstâncias não cede a um neo-realismo tardio, miserabilista, e de "choque", que em muitas ocasiões semelhantes é armadilha fatal. 
E também, no reafirmar da superior eficácia da imagem fixa como instrumento de comunicação visual nos suportes mediáticos. Numa altura em que tantos talentosos jovens fotojornalistas, angustiados pelo Zeitgeist, procuram no cruzamento com as plataformas multimédias, modo de afirmar o seu instinto visual, a imagem que se vê acima fala-nos como um velho amor que teima em não deixar de nos seduzir.
Quantas sequências de video condensa aquele instante? Mas o melhor é ver, aqui e aqui.


20.11.09

RITA CARMO E A POP ART DOS POBRES.



  Depois & Antes; À direita, António Sérgio por Rita Carmo, 1993. À esquerda, intervenção de "Sardine&Tobleroni". Condições de venda: «framed, 72 cm x 102 cm (including frame), selling price EURO 2.000 (April 2008). Note that prices might go up while paintings are on tour.»



A fotógrafa Rita Carmo (Leiria, 1970) é uma profissional que faz a sua carreira  na documentação da cena músical nacional. Conquistou pela sua qualidade e seriedade merecido destaque no meio, como fotógrafa residente do "Blitz" (para o bem e para o mal o nosso New Musical Express), pela sua colaboração com inúmeras bandas, e ainda pela obra publicada, com relevo para o seu "Altas Luzes".
Ou seja, firmou-se como um nome que conseguiu a difícil distinção de ser sinónimo de um género. E que por estes dias está a ser falada na comunidade fotográfica, não pelo mérito próprio mas por (de)méritos alheios.

 Em resumo; a Rita está (justamente) fula e desse estado de alma nos deu conta. Pois que a dupla de artistas plásticos "Sardine&Tobleroni", ou seja o suiço Jay Rechsteiner e o conimbricense Victor "Torpedo" Silveira (ex-guitarra dos Tédio Boys), se apropriou, sem pré-aviso, de várias fotos suas para sobre elas construir parte da exposição "Espelho meu - História do Rock Português". 
O "modus operandi" destes talentos assenta na práctica (mais que estafada) da época áurea da Pop Art que consistia grosso modo na assunção que toda a produção visual e iconográfica contemporânea seria do domínio público. Assim, e por decisão unilateral,  qualquer intervenção plástica à posteriori, transfigurava a obra original numa "coisa" nova, pelo que se considerava convenientemente extripada  de qualquer direito autoral a sua matriz primeira. Tal práctica de atropelo ético, vulgo gamanço, quando aplicada por talentos visuais alucinatórios como Andy Warhol e demais troupe produziu os resultados conhecidos. Quando os talentos são sómente alucinados,  temos como no caso em apreço, apenas um pastiche preguiçoso que visa construir a sua capitalização sobre o esforço alheio. Naturalmente que, legalismos à parte, a cada um o seu ponto de vista, pelo que convido o leitor a, observando o díptico acima,  aferir das diferenças entre o antes e o depois, e da justeza  da "elevação" do documento fotográfico à condição de "obra artística."

De notar que no video da reportagem da vernissage brilha, entre vários, Miguel Ângelo (o dos Delfins, não o outro) a explicar embevecido o monumento que honra a sua banda. Interrogo-me de como reagiria ele se ao entrar num elevador, ouvisse os acordes de uma das suas imortais cantigas samplados num qualquer "Muzak" sem que para tal tivesse sido ouvido nem achado.
 Para finalizar em beleza, o jornalista Davide Pinheiro reproduz nas páginas do "DN" da ocasião, um antológico depoimento de Victor Silveira, dando conta que foi numa ocasião em que partiu as duas pernas que, "Depois do acidente, pedi à minha namorada para me comprar umas telas. Nessa altura começei a trabalhar mais nessa área, porque tinha que permanecer em casa." 
 De facto a necessidade aguça o engenho. E uma desgraça nunca vem só.

16.11.09

QUEM VÊ CCTV?


Nuno Lopes em "Alice", de Marco Martins



No maravilhosamente triste "Alice" de Marco Martins, existe uma cena que é toda uma antologia da relação entre o cidadão e as milhares de câmaras de CCTV  que enxameiam as nossas cidades. Quando o personagem de Nuno Lopes se desloca ás catacumbas do aeroporto de Lisboa para clandestinamente resgatar um saco cheio de cassetes de vigilância, onde espera vislumbrar a sua filha desaparecida.
O operador vídeo com tiques de dealer alienado que lhe proporciona a transação, fá-lo porque sabe que ninguém as vai reclamar. A enorme maioria destas testemunhas silenciosas do nosso quotidiano constroem em milhões de gigabites de informação um gigantesco e surreal puzzle/mosaico da nossa passagem pela terra, cujos ecos se vão perder num espaço-tempo incerto.
Mais que servir as tentações totalitárias dos governos, a multiplicação exponencial destes aparelhos e a forma como a encaramos espelha o nosso medo da vida em sociedade. Da ameaça silenciosa que o "outro" representa, e que nós próprios podemos constituir.

E por vezes, como no caso recente do Metropolitano de Boston, estas sentinelas digitais abandonam a sua função original e entram pelo campo do jornalismo visual. Neste caso em concreto duas câmaras, em rudimentar edição campo/contracampo, assinam um momento de reportagem de "Cidadão-Repórter" - e sem "Cidadão", o que suspeito ser o sonho dos mais cibernéticos patrões de imprensa - dando conta em 30 segundos, de uma história triste com final feliz. A máquina testemunhou, cega e sem critério a miséria do humano. E outro humano logo pegou no seu testemunho e o tornou em mais um fait-diver urbano, à medida de um hit do Youtube, onde imediatamente pontificam comentários como "Ahahahaha ha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!LOL ;) Dumb person".

Dias cinzentos em Alphaville.

11.11.09

DA INOCÊNCIA PERDIDA DA FOTOGRAFIA (E) DO FUTEBOL.


Á esquerda, "O Formidável" Fernando Marques acorre a consolar Eusébio. ©

   









De cima para baixo: Maradona em 1979, o brasileiro Jair durante um nevão num Inter-Pádua em 1962 e Geoff Hurst festeja no mundial de 1966 num momento de "arte" foto, tipo "O Independente" avant la lettre.




Um emocionante post de José Vegar acerca do desencanto que  o futebol moderno lhe causa, trouxe-me à memória a maneira com que a "Idade da Inocência" do desporto-rei era captada pelos fotógrafos de então. Actualmente, o primado das teleobjectivas causa um efeito de isolamento da acção, em espectaculares grandes planos que se repetem ad nauseam de jogo para jogo, seja um Nacional-Belenenses ou um Bayern-Inter. As celebrações das grandes conquistas passaram da subversiva e telúrica alegria (lembremo-nos de João Pinto no Prater de Viena a monopolizar a Taça dos Campeões em 87) para coreografias plastificadas entre nuvens de "confettis" onde só a cor muda, encenadas para as camaras de televisão.

Sinal dos tempos, muitas das mais estimulantes imagens são agora obtidas através de camaras fixas em locais improváveis e disparadas por comando remoto por vezes a 100 metros de distancia. Tudo num cenário onde os adeptos se enfeitam numa excentricidade mainstream, cientes da iminência dos seus 10 segundos de palco visual.
Para sempre ficou perdido o registo da envolvência da acção, com as bancadas apinhadas de uma multidão absorta, os ângulos abertos em que uma dúzia de jogadores bailavam, e a inocência com que as grandes estrelas, então livres dos milionários compromissos comerciais encaravam as objectivas.

E de histórias de futebol e fotógrafos, o nosso país tem a mais bela de todas: naquela fatídica tarde de Julho de 1966, Eusébio abandona em lágrimas o relvado de Wembley. Vejam a foto de abertura acima e reparem num sujeito, magrinho e com uma gabardina coçada que se precipita para consolar o Pantera Negra (existe uma bastante melhor do Mestre Nuno Ferrari). O homem é Fernando Marques, "O Formidável" (1911-1996), o cauteleiro de Coimbra tornado fotógrafo, que "doente" da Académica, corria também o mundo na peugada dos "Magriços". Naquela hora de desespero do seu menino mais querido, Fernando pousou as máquinas e acorreu ao amigo como os Homens fazem. Perdeu o "boneco" mas também ganhou o seu lugar na história. Formidável.

ps. Existe no mercado uma mão cheia de livros repletos de interessantes foto sobre o assunto. Algumas das acima podem ser adquiridas em " Football", de Nick Yapp, edição Konemann

7.11.09

O ESTRANHO CASO DOS ADOLESCENTES QUE NÃO SORRIEM.


                                       Rosie Bancroft por Paul Floyd Blake©.  Imagem vencedora da edição 2009 do 
                                       Taylor Wessing   Photographic Portrait Prize.



Acima temos um  retrato da atleta paralímpica britânica Rosie Bancroft pelo fotógrafo Paul Floyd Blake. É a imagem vencedora da edição deste ano do Photographic Portrait Prize (PPP),  recentemente inaugurado na National Portrait Gallery de Londres. Crescente sucesso de público, o PPP  não está imune à sua dose de polémica, como relata o excelente British Journal of Photography.
Básicamente pelo que tem sido percebido como uma obsessão temática por retratos de sombrios adolescentes, onde não se vislumbra um sorriso. Alguns dos fotógrafos premiados argumentam que na pintura os retratados raras vezes sorriem, e que a exigência de que as pessoas sorriam em representações gráficas é recente; 'In real life you don't go around grinning', afirma Floyd Blake.




Parece assim existir uma notável diferença de foco entre a abordagem retratística do produtor profissional, que tenta captar a "vida como ela é", e a visão do público, que aguarda por imagens "da vida como deveria ser",  ou seja, com os sinais de felicidade omnipresentes na vastíssima produção doméstica de "instantâneos" do círculo familiar e da amizade.
Quanto à escolha do objecto primeiro, i.e os adolescentes como assunto, a explicação é linear. O fascínio pela adolescência projecta certamente a nossa expectativa colectiva na eterna juventude.
E será que a representação desse anseio de imortalidade no ar fechado destes modelos, de onde os sorrisos se mantêm arredados, é apenas um modismo visual, ou reflecte também o espírito angustiado dos tempos incertos que a contemporeaneidade ocidental vive?




Procurar mais pistas em edições anteriores do PPP, e a visitar também a página web do premiado.


ps. refira-se que em anos recentes o PPP tem sido patrocinado pela firma de direito Taylor Wessing, num exemplo de mecenato infelizmente cada vez mais escasso por estas paragens.

3.11.09

MERT & MARCUS - UMA COMUNHÃO VISUAL


Penélope Cruz por Mert&Marcus in Vanity Fair, Novembro 2009



A parceria Mert &Marcus, um dos valores mais cobiçados do mundo da foto de moda, é uma interessante excepção à natureza indivídual da práctica fotográfica. Começa por o espírito da sua estética não se inscrever no das megas produções à lá Leibovitz, cuja complexidade mais pode convidar à união de esforços. Pioneiros de assumida pós-produção digital, o seu trabalho vive também da contenção de adereços, de obsessiva atenção ao make-up e cabelos, servida por completa eficácia de iluminação. Sempre com o foco na aparência do modelo, que ganha absoluta e inquietante perfeição. Na Vanity Fair de Novembro, Penélope Cruz faz capa em mais um notável ensaio da dupla, que a reinterpreta à luz do grande glamour da era dourada de ícones como Rita Hayworth e Ava Gardner.
Mert Alas, de origem turca, e o inglês Marcus Piggott, ambos nascidos em 1971, iniciaram colaboração em  1994. E sim, para além da parceria fotográfica, existe entre ambos um relacionamento amoroso. Os relatos de quem os vê trabalhar contam que alternam a tomada de vistas à vez, sem nenhum guião predefenido, inviabilizando completamente as tentativas de atribuição desta ou daquela imagem a um ou a outro. 
É esta comunhão visual, que parece situar-se fora dos afectos, que acho interessante. Veja-se que Diane Arbus era casada com o fotógrafo Allan Arbus, sem que nenhuma produção conjunta de relevo (exceptuando as lineares encomendas comerciais) seja conhecida. No caso de Helmut Newton, a sua mulher June (aka Alice Springs), trilhou carreira por mérito próprio, afastada do imaginário do marido.


A plena confiança na visão estética do outro parece assim mais dificil de obter do que a da relação amorosa. Quando se faz o pleno, deve ser muito agradável.
Mais da dupla, aqui.

1.11.09

SEXO E PÍXEIS.

 





























©paulo alexandrino 2009



Modorrenta tarde de sábado, a senhora e a menina abalaram para um casamento, bola na tv só mais à noitinha. Ocasião ideal para  excursão ao mundo do erotismo, na procura de um momento de "Arte & Ensaio", que fica sempre bem. No Salão Erótico de Lisboa o ambiente, é como seria de esperar, visualmente estimulante. Os Artistas (e uso a expressão sem ponta de ironia), são na sua maioria muito profissionais, atraentes, competentes e empenhados. Pareceu-me no entanto, que a pouca produção do ambiente industrial do gigante pavilhão da FIL, cortava um pouco o que antecipava ser a atmosfera de um evento do género. Partilhei esta reflexão com o Sr. do stand da Louça das Caldas (a quem adquiri por 3€ um vigoroso frade), que me afiançava, com a autoridade de quem corre todas as feiras eróticas ibéricas, que esta nossa é das mais categorizadas. Em Espanha, relata-me , "as mulheres são uma miséria". Mais uma machadada na mania de dizer mal do que é nosso.


Em termos fotográficos, para além dos talentos em registo autoral, as hostes dividem-se entre os profissionais que abnegadamente documentam o evento, e hordas entusiasmadas de "cidadãos repórteres". Estes últimos recorrem essencialmente a aparelhos foto DSLR e compactos de gama média, (com assinalável presença dos sensores 4/3, excelentes na relação qualidade preço), e a sofisticados telemóveis onde os Sony e os Nokia fazem valer as suas assinaláveis performances fotográficas. Iphones e Blackberrys levam neste departamento bigode das marcas mais antigas. Todos beneficiam do desconcertante à vontade e paciência dos actores e actrizes, que não perdem a compostura nem quando alguns "chaussers d`images" mais voluntariosos quase introduzem os telemóveis em locais reservados à actividade lúdico-profissional.


Uma palavra final para o numeroso e descontraído público, sendo de saudar a elevada presença de casais em espirito de convívial e galhofeira boa disposição. Parabéns à organização do simpático certame que já se constituiu como um bom costume sazonal. Mais fotos de uma tarde educativa para ver aqui

29.10.09

ROY DECARAVA, O POETA DO HARLEM



1963. John Coltrane por Roy DeCarava ©





“One of the things that got to me, was that I felt that black people were not being portrayed in a serious and in an artistic way.”
 Roy DeCarava, in New York Times.

Se Josef Sudek era "O poeta de Praga", Roy DeCarava devia ter o epiteto de "O poeta do Harlem", ou se se quiser ser mais gongórico, o de um quase Obama da fotografia norte-americana. Situemos-nos; nascido em 1919, DeCarava foi o primeiro negro a impor-se na cena fotográfica contemporanea. Essencialmente através de uma documentação empenhada do seu Harlem natal, num registo que se projecta bem além da Street Photography,  feito de subliminares interpetrações plásticas do quotidiano do caldeirão sócio-cultural do mítico bairro nova-iorquino, com normal incidência na trepidante cena jazz. Protegido de  Edward Steichen, abre nos anos 50 a  "A Photographer`s Gallery",  casa afamada por ser um dos primeiros espaços expositivos nova iorquinos a celebrar exclusivamente a Grande Fotografia. Polémico qb, nunca fez cedências ao mainstream, antes perseguiu coerente e singular assinatura. Tinha o raro talento do dominio técnico que lhe permitiu ser um dos muito poucos que, jamais usando flash, conseguia sistemáticamente que os seus clichés respirassem numa envolvente e densa paleta de cinzas e negros profundos, de onde a vida lentamente emerge.


Fui apresentado à sua obra nos idos de 80 na cooperativa Árvore no Porto, onde pontificavam no corpo docente uns seus acirrados admiradores. Confesso com vergonha que quase me tinha esquecido deste talento, até tropeçar no jornal da sua aldeia, em mais um obituário, este sem as fanfarras de passamentos recentes.
Mas vou (vamos) sempre a tempo de voltar a pasmar perante este miraculoso Coltrane, que sopra no seu sax como se não houvesse amanhã. Para quem não conhece, urge visitar portofolio no Lens, e info variada aqui.

26.10.09

A PINA O QUE É DE PINA.



                                                               Rio de Janeiro. © João Pina

Há uns anos atrás, desloquei-me à AR para uma sessão foto com o então governante Joaquim Pina Moura.
Que me submeteu a uma  barragem de perguntas acerca do ofício de fotógrafo independente, das dificuldades e contigências de exercer a profissão no mercado nacional. O interesse justificava-se, pois tinha um filho que manifestava irreprimível empenho em profissionalizar-se, o que compreensívelmente lhe causava alguma preocupação. Respondi o melhor que pode e soube e rematei com alguma sobranceria que, por regra geral, o mercado permite a sobrevivência aos que apresentam qualidade.




Estava longe de imaginar o que dali ia sair. João Pina rápidamente se afirmou como um dos mais fulgurantes talentos da sua geração, colecionando prémios, honrarias e granjeando reconhecimento público. Precisamente por não se querer submeter apenas à sobrevivência num mercado recessivo e madrasto,  arrisca e ganha a aposta numa consequente carreira internacional. Etapa deste percurso são as suas imagens das  favelas do Rio, assunto ao qual se dedica há um par de anos. Uma dessas reportagens foi inicialmente publicada na augusta New Yorker, e recentemente difundida no "El Pais". Significativamente, ainda nenhum jornal nacional assegurou a sua publicação. Lá se confirma a elegante eficácia com que Pina obtem a dificil simbiose entre o plasticizante e o informativo, mostrando a maturidade dos grandes talentos. Trocado por míudos, parece fácil. Mas não é.




Bom Salieri que sou, vivo feliz com o talento alheio. E é necessário reconhecer que Pina é somente um dos empenhados fotógrafos que integram a KameraPhoto, agência lusa que paulatinamente tem imposto no mercado nacional um certo fotojornalismo "engagé", o que só por si já é coisa de respeito.
Dezenas de outros talentos, a inventariar em futuras ocasiões, povoam a cena fotográfica nacional, a maioria assoberbados por tarefas de ingrata e rotineira agenda e edição numa imprensa escrita que receio agonizante.




Um abraço para todos. Mas, e até porque ser fotógrafo é essencialmente um ofício solitário, o momento é de João Pina.

19.10.09

FOTÓGRAFOS, VIDEÓGRAFOS E AFINS; CONTRIBUIÇÃO PARA UM DEBATE


O fotojornalista videógrafo Danfung Dennis algures no Afeganistão com a 
sua Canon 5d MkII  vestida para filmar. ©Joe Raedle/Getty


O problema que mais aflige a profissão, com especial incidência no fotojornalismo,  é a actual diminuição dos "fees", tanto em termos relativos como absolutos,  comparativamente ao que se auferia ainda há meia dúzia de anos. Tendência internacional, afigura-se como inelutável à maioria dos profissionais, que veem a sua dignidade posta em causa. Os grandes fabricantes japoneses de material fotográfico pressentiram o sangue, e tem desenvolvido em anos recentes uma panóplia de produtos hibrídos que partem de um berço "foto" para capacidades de registo videográfico cada vez mais performante. Vão naturalmente de encontro às expectativas de parte de uma classe no seu todo muito receptiva aos avanços tecnológicos, que tende a ver no video o prolongamento natural do seu mister, se bem que por razões diversas.


Assim, as hostes dividem-se entre aqueles, que como o muito nosso Manuel Almeida, acham genuinamente que a videografia é um media que em dadas circunstâncias é o prolongamento natural das suas capacidades de "storytelling". E outros, que mais comercialmente orientados, abraçam os novéis suportes de uma maneira mais pragmática. Como declaração de intenções, digo que caso chegue a tal, incluir-me-ei nesta segunda categoria. Mas a nuvem que ameaça o fotojornalismo tradicional, fácilmente faz chover sobre este  mundo. Ou seja, para alem da necessidade incontornável de seguir as piruetas da tecnologia, urge séria reflexão colectiva acerca da maneira mais eficaz de cobrar ao mercado este "upgrade" do produto visual fornecido. 

É minha sincera opinião que, ao avançar com excessivo voluntarismo, se corre o risco de "estragar" um outro mercado que tem os seus agentes estabelecidos, a juntar ao já tão maltratado campo da "still photography".

Sobretudo numa realidade como a nossa, cheia de contabilistas editoriais de mercearia, devidamente acolitados por um naipe de chefias intermédias entaladas entre a espada dos chefes e a parede dos indíos. E que como todos, navegam à vista.

À consideração  da plateia e com a devido agradecimento aos "links" do sempre atento David Clifford, pela inspiração para esta entrada.

17.10.09

ACERCA DA " STREET PHOTOGRAPHY" E DAS SUAS VÍTIMAS.























©Bruce Gilden in "A Beautiful Catastrophe"

A disciplina fotográfica mais polémica na relação entre fotógrafo e fotografado, o direito à imagem e à privacidade, deve ser a chamada "Street Photography". Conheço poucos fotógrafos que em dado momento não tenham feito incursão neste género, que quando feito com honestidade é dificil e sofrido, por, como bem sumariza a nossa camarada Anabela Oliveira, ser preciso a coragem "para ir lá, sujeitar-se a ser agredido como, no fundo, podemos estar a agredir os fotografados."


Não sei se esta interessante reflexão ética faz parte das preocupações do fotógrafo da Magnum Bruce Gilden (Brooklin, 1946), um dos expoentes máximos do género, cujo registo é particularmente cru. As "vítimas" que caça nas mais variadas latitudes aparecem maioritáriamente com um ar de desconchavo fatal, espécie de "Fellini meets Diane Arbus by Stephen King". Gilden esteve há alguns anos em Portugal, onde produziu, fiel á sua estética, uma série notável, junto da comunidade cigana de Braga. Quem o conheceu diz-me que é o arquétipo do Nova Iorquino à lá Woody Allen, neurótico, mas muito divertido. E  alheado q.b. do recorrente debate que a sua práctica inevitávelmente desencandeia.


Por mim, se fosse seu defensor, advogaria que o seu trabalho, ao documentar fragmentos de uma sociedade viva e mutável, num dado espaço e tempo, tem a valia de um August Sander.
Se fosse seu detractor diria que Gilden não passa de um predador visual que não hesita em sacrificar a dignidade dos seus semelhantes à sua própria visão social apocalíptica.
Mas a perplexidade e o fascínio que a sua produção e  modus operandi me causa, não me facilita a sentença. Diz o próprio num depoimento a propósito da sua série no Haiti em 1985 que, "When a viewer looks at my pictures, I just hope that they make up a story about what goes on."
Justo. Olho então para a personagem da direita da "dupla" acima reproduzida, extraida do seu celebrado livro "A Beautiful Catastrophe"; e a história que faço é a de uma cidadã, que já teve da vida a sua dose de misérias, má sorte e chatices sortidas, e que dispensaria a honra de se ver dada à estampa, em papel couché e nas boas galerias, como actriz involuntária de um projecto visual que inventaria "the human zoo that is New York".


Certeza só tenho que isto da fotografia tem que se lhe diga.

15.10.09

OS INSTANTES EM QUE NADA SE DECIDE.


Hiroshi Sugimoto, in "Theaters"
                                     



Todas as prácticas fotográficas têm razões de sedução.  Por mim, tanto pasmo com o olho nervoso do Ronis que congela o "instante decisivo" como me hipnotizo com as paisagens maritimas de Hiroshi Sugimoto (Tóquio, 1948), onde nada se passa, nem o tempo. 

Uma das imagens a que volto sempre, é precisamente de Sugimoto. Este japonês (in)tranquilo é practicante exímio de uma certa  introspecção visual alucinatória, assente em notáveis "tour de force" técnicos. Fotografa até hoje em pelicula de grande formato, suporte que "fala" naturalmente com esta tal foto da sua série "Theaters" dos anos 70. A hora e meia, ou coisa assim, que durou a exposição, é um longo instante em que nada se decide. As imagens projectadas na tela dissolvem-se num "white noise", que transmuta a narrativa directamente para o curso que a nossa imaginação lhe quiser dar. 

Que será sonho ou pesadelo,  a decidir, (ou não) nos longuíssimos instantes da nossa individualidade mais inconfessável.


Conhecer mais de Hiroshi Sugimoto, aqui e aqui.

7.10.09

IRVING PENN. OS BONS MORREM VELHOS.


                      Lisa Fonssagrives por Irving Penn


Tem sido um ano aziago, cheio de partidas de grandes senhores da fotografia. Primeiro Julius Shulman, depois Willy Ronis, e agora foi a vez de Irving Penn, gigante da moda, retrato e arredores.


Para além de tudo o mais, Penn sempre me foi um personagem simpático. Quando uma vez, já artista consagrado um entrevistador lhe perguntou o sacramental "Senhor Penn, o que o leva a fotografar?", disparou a mais sincera das respostas, que o pedantismo e insegurança veda aos talentos remediados: "Porque é o que sei fazer de melhor para me sustentar a mim e à minha familia".


Quanto à sua obra, a melhor homenagem que podemos fazer é olhar e olhar e voltar a olhar. Aqui é um bom sítio para começar.
Em nota de rodapé, nota-se que Schulman morreu aos 98 anos. Ronis aos 99. E agora Penn passou-se aos 92 ( e ainda teve a boa ventura de se poder casar com a sua modelo favorita, a deslumbrante Lisa Fonssagrives); parece que tirar boas fotografias ajuda à longevidade.
Pessoal, tudo para trás da máquina com entusiasmo e honestidade. Muitos vamos morrer cedo, mas pelo menos tentámos.